‘A Estrada’ da salvação.
- Don't even hear a murmur of a prayer
It's not dark yet, but it's getting there.
- Bob Dylan.
A Estrada foi o “Livro da década” de Cormac McCarthy, que ficou mais conhecido pelo “Onde os Fracos não têm vez”. Também transformado em filme com o sempre bom Viggo Mortensen (Aragorn de O Senhor dos Anéis). Vi já tem alguns meses e depois da gravidez da patroa acabei lendo o livro.
A curiosidade humana indaga durante boa parte do filme e do livro: O que aconteceu? O mundo é cinza, todos os relógios pararam a 1:17*, depois de muitos anos não existem mais calendários e apenas uma vaga noção do tempo; os dias ficam mais frios, nenhum animal sobreviveu, as plantações desapareceram e todas as árvores vão cair. O que aconteceu é apenas um detalhe, independe se foi uma hecatombe nuclear ou um meteoro, depois de um tempo já temos certeza de que é o fim do mundo e pronto, não existe escapatória. No entanto, prefiro pensar que é algo mais como a segunda vinda, já que o poema do Yeats condiz tão bem com o filme:
Turning and turning in the widening gyre
The falcon cannot hear the falconer;
Things fall apart; the centre cannot hold;
Mere anarchy is loosed upon the world,
The blood-dimmed tide is loosed, and everywhere
The ceremony of innocence is drowned;
The best lack all conviction, while the worst
Are full of passionate intensity.
Mais um filme sobre o fim do mundo estilo Mad Max? Não. É um filme sobre um Pai e seu filho, o relacionamento entre eles e como ambos encaram o fim da humanidade. O Pai cansado, abandonado pela esposa, desnutrido, sozinho, contemplando o suicídio, tentando educar e mostrar ao filho que são “os caras do bem”, contra todo o restante de “caras do mal”, que capitularam a conduta geral de roubo e canibalismo.
Não é uma tarefa fácil, especialmente se levarmos em consideração que o filho nasceu depois do fim do mundo e não teve contato com o mundo normal. Conforme essa passagem do livro:
“Ele não tinha como construir para o prazer da criança o mundo que tinha perdido sem construir também a perda e achava que talvez o menino soubesse disso melhor do que ele. Tentou se lembrar do sonho, mas não conseguiu. Tudo o que restara era a sensação. Pensou que talvez eles tivessem vindo avisá-lo. De quê? De que ele não podia acender no coração da criança o que eram cinzas no seu próprio”.
É um filme que leva a pensar: E se fosse eu? Carregaria o fardo de levar “O Fogo” e tentar passar para uma criança indefesa? Continuaria tendo Esperança mesmo depois de perder toda a Fé? Disse acima que era um filme sobre o fim da humanidade porque o mundo continua, ainda existem pessoas, mas a humanidade deles foi esgotada.
Não é um filme de ação como o Trailer tenta enganar, é uma elegia sobre o fim do mundo, tudo muito triste e melancólico, mas que pode acender no espírito de quem assiste ou lê a sensação de que a humanidade sempre vai ter salvação.
*aprendei a fazer o bem; buscai a justiça, acabai com a opressão, fazei justiça ao órfão, defendei a causa da viúva. Isaías 1:17.

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