Thursday, September 29, 2011

Canto II, Inferno.



Começa sua jornada com Virgílio e Dante tem dúvidas sobre a possibilidade ou não de empreender viagem tão insólita. A razão é que apenas Enéas pôde realizar tal viagem com seu “corpo sensível”, no entanto, com autorização do “inimigo de todo o mal” e, Dante não se crê digno de igual concessão. Aqui volta a luta espiritual em questão, mesmo sabendo que sua alma encontra-se perdida e com consciência de que existe apenas uma maneira de salvar-lá - seguindo Virgílio, representando a razão humana - Dante ainda é frouxo quanto ao caminho que deve seguir. É a velha dificuldade de fazer o certo mesmo quando se sabe o que é o certo.
Para apaziguar o medo de Dante, Virgílio, busca ajuda em argumentos que vão além da razão, quais sejam, o amor de Beatriz pela alma de Dante e a Fé de que ela ainda tem salvação. Conta o guia que um anjo o chamou e disse:
“Ó alma generosa mantuana,
de quem a fama ainda no mundo dura
e durará quanto a memória humana,
o amigo meu, mas não de sua ventura,
tão na deserta encosta está impedido
que, de pavor, sua volta já procura;
e temo que se encontre tão perdido
que eu tarde esteja a o socorrer levada,
pelo que dele foi no céu ouvido.
Vai então, e co’ a tua fala ilustrada
e o que mais salvá-lo for capaz,
ajuda-o pra que eu seja confortada.
Eu sou Beatriz, que peço que tu vás,
venho de aonde retornar almejo,
amor moveu-me, que falar me faz”.
Vemos aqui que Dante tem autorização divina para sua jornada e Virgílio mostra que “3 mulheres” intercederam por ele, a Virgem, Santa Luzia e Beatriz e, sua alma encontra-se em perigo de perdição, sendo necessária a intervenção divina. Depois de toda explicação, Dante se encoraja novamente e decidi seguir Virgílio fielmente.
Aqui cabe uma observação: praticamente tudo na comédia tem seu propósito, posso não notar várias coisas, mas sempre tento pegar o básico para melhor compreender o poema. Dito isto, cabe ver que Santa Luzia é a padroeira dos oftalmologistas e dos que tem problemas de visão, pode ser que Dante tenha tido algum problema “real” nesse sentido, mas também havia a cegueira espiritual pela qual a Santa intervém na tentativa de salvar sua alma.
Neste canto também é interessante a resposta de Beatriz a Virgílio sobre o motivo de ela não temer “descer” ao limbo, ao que ela responde:
“Temer deve-se a coisa em que o poder
de nos causar o mal se manifesta,
as outras não, das quais não há temer”.
Considero um recado para o Dante: o mal, em si, não pode fazer nada, a partir do momento que a pessoa realiza algo errado é que começa a perdição   da alma e o mal começa a ter poder. É uma questão de escolha. 

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