Canto I, Inferno.
Na metade de sua vida, Dante se encontra na “selva escura” da vida, indo parar ali pelo desvio do reto caminho - citado duas vezes ainda no começo do poema - e usa a palavra “amarga” para descrever sua “tensão espiritual” equiparando tal estado a morte:
“De tão amarga, pouco mais lhe é a morte,
mas, pra tratar do bem que enfim lá achei,
direi do mais que me guardava a sorte”.
Alega que não sabe como foi parar ali, pois estava em um estado de muito sono, ou seja, algum tipo de relaxamento moral ou incapacidade de compreender o que estava ocorrendo a sua volta, o abandono da razão - utilizando essas metáforas mais de uma vez no poema. Tentando sair com vida da selva (salvar sua alma), Dante encontra uma onça, e sua primeira reação é de medo, no entanto, o medo dele perante a fera se desfaz ao perceber que amanhecia, inspirando a lembrança do amor divino e a necessidade de enfrentar os obstáculos, conforme os versos:
“Amanhecia, e no céu cristalino
o sol subia co’ essas mesmas estrelas
que o acompanharam quando o amor divino
primo moveu todas as coisas belas”.
Apesar da coragem, aparecem também um leão e uma loba para espantar Dante novamente, e as três feras - que representam a incontinência, violência e fraude - não o deixam passar para terminar a saída da “selva” e o empurram de volta.
No entanto, desse encontro acaba advindo uma “sorte”, que é o encontro com a alma de Virgílio que vai ajudar Dante em sua jornada, sendo também seu modelo em vida como poeta:
“És tu aquele Virgílio, aquela fonte
que expande do dizer tão vasto flume?
respondi eu com vergonhosa fronte,
Ó de todo poeta honor e lume,
valha-me o longo estudo e o grande amor
que me fez procurar o teu volume.
Tu és meu mestre, tu és meu autor,
foi só de ti que eu procurei colher
o belo estilo do meu louvor”.
Então Virgílio, para o bem de Dante, quer que ele siga outra via, sendo guiado por ele para conhecer lugares em que as almas rogam por uma segunda morte enquanto outros tem Esperança de entrar entre os beatos. Ou seja, pelo inferno e purgatório e, uma alma digna o levará ao paraíso, já que Virgílio é herege.
Neste primeiro canto percebemos o mergulho de Dante em sua consciência, ao perceber que ele não seguia o caminho correto em suas ações e encontrava-se perdido sendo necessário a ‘religação’ de seu espírito com o Divino, para sua salvação. Para melhor entender esse primeiro ponto, apenas alguns comentários iniciais:
“O drama da vida humana para Dante, homem-síntese da Idade Média, consiste na franqueza do homem que não sabe resistir à atração que exercem sobre ele os bens terrenos, falsos e caducos, que, amados por si mesmos, afastariam o homem da salvação espiritual, salvação só possível para quem possuir as quatro virtudes cardeais, força justiça, prudência e temperança, em conjunção com as três virtudes teologais, fé, esperança e caridade, únicas que conduzem a Deus”.
“Em suma, se para nós, homens modernos, tudo consiste em entender quem somos e qual função temos em sentido absoluto no universo em que vivemos, para Dante, o problema central, (...) é ver o lugar limitado que ocupa o homem no universo, criado, circunscrito e dominado completamente por Deus. Em outros termos, o homem sem Deus é para Dante um ser perdido, no sentido de que jamais poderá encontrar em si mesmo, enquanto homem, a razão última e verdadeira da própria vida”.
“Quanto a escolher Virgílio como guia na sua viagem através do Inferno e do Purgatório, isto se deve ao fato de que este era considerado na época não só um grande poeta, mas aquele que previra a vinda de Cristo que anunciaria uma nova idade para a humanidade, quando esta se libertaria da servidão do pecado. Virgílio, na verdade, para a cultura medieval, não era um cristão, mas se tornara quase um profeta do cristianismo. Por isso Dante o escolheu para seu guia e mestre de poesia, fazendo-o símbolo da razão que pode tornar os homens donos da quatro virtudes cardeais, que por si só bastam para mostrar-lhes o que é justo e certo, mas não bastam para libertá-los do pecado original, do qual somente podem se libertar aqueles que receberem o batismo. Por isso, Virgílio, que não havia recebido o batismo, não pôde ascender ao Paraíso. Assim, Dante se fará guiar no Paraíso por Beatriz, que é o símbolo da teologia. E será ela a levá-lo em todos os céus em contato com as almas bem-aventuradas e o fará ver a alegria que estas gozam por não terem na memória a mácula de qualquer pecado e por conformarem sem reserva sua vontade àquela de Deus. Mas não será ela porém a pôr Dante diretamente em contato com Deus, que mora no Empíreo, mas sim São Bernardo, pois o homem, por mais que se esforce, jamais poderá conhecer Deus servindo-se apenas do instrumento da razão. A razão humana num certo ponto torna-se impotente para prosseguir o trajeto que conduz a Deus, e então só com um salto místico poder-se-á alcança-Lo e acolhê-Lo em todo o seu mistério, mas sempre de um modo limitado”. (Comentários de Carmelo Distante na Edição bilíngüe da editora 34)

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